Já Condenado
por Vincent Cheung
“Porque Deus tanto amou o mundo que deu o seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna. Pois Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, mas para que este fosse salvo por meio dele. Quem nele crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado, por não crer no nome do Filho Unigênito de Deus.
Este é o julgamento: a luz veio ao mundo, mas os homens amaram as trevas, e não a luz, porque as suas obras eram más. Quem pratica o mal odeia a luz e não se aproxima da luz, temendo que as suas obras sejam manifestas. Mas quem pratica a verdade vem para a luz, para que se veja claramente que as suas obras são realizadas por intermédio de Deus”.
“Aquele que vem do alto está acima de todos; aquele que é da terra pertence à terra e fala como quem é da terra. Aquele que vem dos céus está acima de todos. Ele testifica o que tem visto e ouvido, mas ninguém aceita o seu testemunho. Aquele que o aceita confirma que Deus é verdadeiro. Pois aquele que Deus enviou fala as palavras de Deus, porque ele dá o Espírito sem limitações.
O Pai ama o Filho e entregou tudo em suas mãos. Quem crê no Filho tem a vida eterna; já quem rejeita o Filho não verá a vida, mas a ira de Deus permanece sobre ele”. (João 3.16-21, 31-36)
O Evangelho de João é frequentemente usado por cristãos, de uma forma ou outra, para introduzir o Senhor Jesus aos incrédulos. Sem dúvida, muitas outras partes da Bíblia podem ser usadas para esse propósito, mas muitos favorecem este Evangelho. Isso é compreensível. Este Evangelho apresenta uma visão exaltada de Jesus Cristo, ensinando claramente tanto sua divindade como humanidade. Ele oferece várias descrições instrutivas de Cristo, tais como pastor e testemunha. Ele fala em metáforas vívidas tais como luz e água viva. Enfatiza ideias positivas tais como salvação, crença ou fé, um nascimento do alto, verdade, vida, ressurreição, e assim por diante.
Contudo, eu me pergunto se muitos desses cristãos que favorecem tanto o Evangelho de João sabem o que ele realmente diz, ou se eles leem e usam-no com preconceitos tão fortes que falham em ver suas ênfases claras. Este Evangelho contém contrastes explícitos e repetidos entre Cristo e o mundo, entre os cristãos e não cristãos, entre luz e trevas, bem e mal, e de uma forma quase contínua enfatiza a ideia de condenação contra aqueles que não creem e seguem a Cristo.
Aqueles que empregam João para introduzir a fé cristã aos incrédulos com frequência não refletem sobre essas coisas. Eles sabem o que o Evangelho de João realmente ensina? Muitos incrédulos também falham em observar essas coisas quando leem o Evangelho. Eles estão, como esse mesmo Evangelho ensina, cegos para as coisas espirituais, mesmo quando estas são explicadas em claras letras diante dos seus olhos. E a mensagem distorcida que eles ouvem dos cristãos assegura que a nuvem sobre suas mentes, já tão destituída de inteligência, permaneça negra e carregada. É bom para os cristãos apresentar Jesus Cristo ao mundo pelo Evangelho de João, mas algumas vezes eles não sabem o que é que estão oferecendo. Não devemos permitir que as pessoas leiam o Evangelho, mas então preguemos algo diferente disso.
João 3.16 é um dos versículos mais populares usados no evangelismo. Ele é quase inteiramente positivo, e refere-se ao amor de Deus, o ato dele doar seu Filho, e a vida recebida por aqueles que creriam. O versículo seguinte não destoa, pois diz que o Filho não veio para condenar o mundo, mas para salvar o mundo. Os cristãos adoram tanto este versículo que alguns alegam que o mesmo resume a mensagem inteira do evangelho.
Contudo, é duvidoso que essa seja a impressão exata que João deseja transmitir. Isso porque João 3.16, que soa tão positivo e afirmativo, está rodeado de muito mais versículos sobre a impotência espiritual e intelectual do não cristão (3.1-12) e a condenação de Deus contra ele (3.18-21, 31-36). Os versículos antes de 3.16 ensina que, a menos que uma pessoa nasça do céu, ele não pode perceber ou participar no reino de Deus. Uma pessoa está num estado de incapacidade e desesperança, a menos que isso lhe aconteça. Então, os versículos após 3.16 nos dizem que uma pessoa que não creia em Cristo já está condenada, e que a menos que creia, a ira de Deus permanece sobre ela.
Dessa forma, sem dúvida Cristo não veio para condenar, visto que o mundo já estava condenado. Nenhum esforço especial ou passo extra era necessário para colocar todos os não cristãos sob a ira de Deus – eles já estavam sob ela. Mesmo a própria passagem de 3.16 sugere que alguém que não creia em Cristo irá “perecer”, e que esse é o veredicto existente contra ele a menos que creia. Um cristão falha em transmitir a mensagem de João 3.16, a menos que pregue-o sob esse pano de fundo.
Como faz em muitos outros lugares, João divide a humanidade em dois grupos. Há os eleitos, aqueles a quem Deus escolheu para salvação, de forma que eles são aqueles que já creram ou que crerão em Cristo no tempo determinado por Deus. E há os réprobos, aqueles a quem Deus escolheu para condenação, de forma que eles são aqueles que recusam crer em Cristo. Antes da criação do mundo, Deus já tinha decidido quem pertenceria a cada um desses dois grupos. Dessa forma, isso não é determinado quando Cristo é pregado a uma pessoa; antes, por sua reação a Cristo, é revelado que tipo de pessoa ela é, e a qual grupo pertence.
Jesus Cristo é o mesmo Senhor exaltado quer alguém creia nele ou não, e quer alguém tenha respeito por ele ou não. A reação de um homem a Cristo não nos diz algo sobre Cristo, mas nos diz algo sobre o homem. Ninguém julga a Cristo, mas todo homem é julgado por ele, e exposto por sua opinião sobre ele.
É popular confessar que não podemos conhecer o coração de um homem, de forma que em muitos casos devemos evitar o julgamento. Isso é engano. Não podemos conhecer o coração de um homem por nosso próprio pensamento e investigação, mas não devemos fazer essa limitação humana maior que a revelação divina. Quando Deus declara um princípio sobre o coração do homem, podemos crer nele, e podemos julgar um homem por meio de tal princípio. João escreve que Cristo veio ao mundo como uma luz, mas muitos homens recusam vir a essa luz porque suas obras são más, e preferem permanecer sem serem expostos sob o manto das trevas. Não existe algo como uma boa pessoa que seja ao mesmo tempo um não cristão. Os incrédulos podem reclamar que a fé cristã é falsa e irracional, mas todas as objeções são facilmente respondidas. Essas são somente escusas que ocultam a razão real. A verdade é que eles recusam vir a Cristo porque são pessoas perversas, almas condenadas que Deus não escolheu resgatar, mas condenar, pela culpa que herdam de Adão e pela culpa na qual incorrem por seus próprios pecados.
O Evangelho não retrata os incrédulos como vítimas infelizes, mas como pessoas que permanecem em trevas intelectuais e morais, em pensamento s esquemas maus, em rebelião e hostilidade aberta contra a natureza e padrão santo de Deus. Como podem os cristãos recomendar tão avidamente esse Evangelho, quando a pregação deles não reflete o que ele ensina? Parece que, devido à sua própria pecaminosidade remanescente e a influência do mundo, eles também se tornaram cegos para o que a Escritura diz em clara linguagem. E alguns até mesmo atacam aqueles que pregam dessa forma, como os falsos profetas atacaram Jeremias por proclamar o julgamento contra o seu próprio povo. Assim como os incrédulos revelam sua verdadeira natureza por sua reação a Cristo, esses cristãos professos revelam sua verdadeira natureza por sua reação à Escritura e àqueles que declaram-na fielmente.
Na conclusão do Evangelho, João declararia que ele tinha escrito este registro da vida e ensino de Cristo, para que os seus leitores pudessem crer nele, e crendo nele, pudessem ter vida eterna. E aqui em João 3, ele confronta seus leitores com a missão de Cristo para salvar aqueles que creriam, e com a realidade da condenação sobre os não cristãos. Ele faz tudo isso por meio de um documento escrito que envia.
Em outras palavras, aceitar ou rejeitar a Cristo não equivale necessariamente a um encontro com Cristo na carne, a pessoa física. Aceitar o testemunho apostólico sobre Cristo é aceitar verdadeiramente a Cristo, crer nele e ter vida eterna. E rejeitar o testemunho apostólico sobre ele é verdadeiramente rejeitá-lo, e permanecer sob condenação. Que uma pessoa seja incapaz de encontrar a Cristo na carne não apresenta nenhum obstáculo, e dessa forma não fornece nenhuma escusa para a incredulidade. E isso porque as afirmações sobre ele são espirituais, e o conhecimento e reação a ele são espirituais também, de forma que ele pode verdadeiramente aceitá-lo ou rejeitá-lo sem contato ou percepção física. Ele pode aceitar ou rejeitar na mente somente.
João era um apóstolo, e ele de fato teve contato físico com Cristo, mas o seu testemunho sobre ele preocupa-se com o espiritual, não o físico. E como disse anteriormente, uma pessoa que tenha recebido uma verdadeira percepção espiritual de Cristo é uma testemunha confiável de Cristo. Isto é, o Espírito Santo capacita essa pessoa a perceber em sua mente que todos os ensinos apostólicos sobre Cristo permanecem verdadeiros – que ele era Deus e homem, que andou sobre a terra, ensinou, curou e realizou milagres, que morreu pelos pecados dos escolhidos, e ressuscitou dentre os mortos para a justificação deles. Uma pessoa que recebeu esse discernimento é capaz de oferecer testemunho verdadeiro sobre Cristo. Ele percebeu Cristo de uma maneira e num nível no qual Cristo deveria ser percebido.
Portanto, embora não possamos ter contato físico com Cristo, e embora não possamos ser apóstolos, podemos confrontar o mundo com a pessoa de Jesus Cristo tão verdadeiramente quanto os apóstolos o fizeram. E de fato, nosso testemunho é baseado no testemunho deles. Aceitar o nosso testemunho sobre Cristo é aceitar a Cristo, e rejeitá-lo é rejeitar a Cristo. Dito isso, ainda temos o testemunho dos apóstolos conosco na Escritura, de forma que eles, mesmo estando mortos, ainda falam.
Os cristãos tendem a usar o Evangelho para promover sua visão manipulada de Cristo e da fé cristã. Contudo, é o Evangelho que deveria mudar a forma como vemos o mundo, como vemos as pessoas e as diferenças entre elas. E o Evangelho diz que existem apenas dois tipos de pessoas, cristãos e não cristãos. Aqueles que creem em Cristo herdarão a vida eterna, mas aqueles que não creem nele serão condenados, pois a ira de Deus já está sobre eles. Assim como João declara tudo isso abertamente àqueles a quem desejava que cressem em Cristo, é muito melhor declarar toda a mensagem de João 3, do que somente uma exposição seletiva de João 3.16.
Fonte: The View from Above, cap. 10.
Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto. Maio/2009
via: Monergismo.com
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